Qual o sentido de estudar Filosofia?
Carlos Roger
O convite da Filosofia (porque não é algo que se impõe a alguém) sempre foi, de um jeito ou de outro, a autonomia. E, por conta disso, ela se vê cercada por “detratores” , por exemplo, as ciências (as quais dizem que suas proposições são as únicas com caráter de verdade e, por conseguinte, tem sua confirmação nas realizações técnicas que facilitam nosso cotidiano); o pensamento pequeno-burguês – que não é só da burguesia – de que o bem estar material seria a única coisa realmente importante e meta de vida desejável; as ideologias (políticas e/ou religiosas) que silenciosamente fazem crescer suas ramificações ao ponto de serem consideradas como “únicas”. Tudo isso é imposição (e não convite) à heteronomia: a minha lei quem a criou foi outro. É claro, as pessoas não se dão conta disso, permanecendo letárgicas em seu pensar e fazer. Ou, dito de outro modo, o seu pensar funciona e condiz apenas com o modo de pensar daqueles detratores.
Nos Seminários de Filosofia levados adiante pelo professor Custódio Almeida em dezembro de 2010 na UFC (e que fui participante) o que houve foi um convite a ingressar no universo filosófico o qual não é um lugar diferente daquele em que nós já vivemos. O professor Custódio nos mostrou que o filósofo não é aquele que fez uma graduação de Filosofia, mas aquele que, num diálogo constante com a tradição filosófica e num diálogo constante com o mundo, consegue ter uma visão de conjunto do momento presente (ideia provinda de Heidegger). Dentro desta visão de conjunto não se corre atrás de “essências” (pois uma essência denotaria algo fixo), mas interpretações que buscam constituir um sentido pra aquilo que nós, seres humanos, vivenciamos neste momento de nossa história. As coisas do mundo estão sempre em movimento, logo não existe essência que as fixe, nos envolvendo perpetuamente num diálogo hermenêutico.
Não é que não existam “verdades”. Elas se configuram como algo que faça sentido dentro de um contexto em determinado momento. Como não há nada fechado, a trajetória filosófica caminha sempre por aproximações sem que se caia no ceticismo exagerado (onde “tudo é relativo”: frase que contradiz a si mesma porque levanta uma pretensão de verdade que nada tem de “relativa”).
É verdade que se diz muito ainda que a Filosofia e seu estudo sejam por demais difíceis. Em parte isso foi gerado por alguns professores que se resumiam a dar aulas de História da Filosofia. Isso é algo bem enfadonho gerando opiniões de que não é possível compreende-la e, logo, não diz respeito a ninguém, exceto aos filósofos que habitam as universidades. Mas isso não é a regra geral, pois quando bem mostrada e conceituada como uma atividade que envolve o diálogo e a vivência, a Filosofia não apóia este pensar (que é um reflexo daquele pensamento detrator da Filosofia) que é fazer-se inimigo de si mesmo ao desinteressar-se e achar inútil deter-se acerca das questões fundamentais da vida tais como a política, o convívio humano, a sexualidade, a saúde, a ética, as consequencias da imagem do homem virtual do século XXI, a morte, a educação e outras coisas de igual ou maior importância. Não querer entrar no universo filosófico é abster-se de pensar mais e melhor, preocupar-se em trabalhar e se divertir nos finais de semana, ter algumas “opiniões” e ficar feliz com isso. Sem o filosofar não há polêmica possível porque ela se pergunta por que o mundo ordena-se deste jeito ou não de outro (não como fornecer a si mesmo uma visão de conjunto). Procurar respostas a esta pergunta até às últimas consequências não deixa de ser um perigo, pois eu teria de se pensar diferente e modificar a própria vida, com outra maneira de pensar e agir. Certamente autônoma, mas muito diferente do que se vive. O ponto do conforto de rebanho como vacas pastando seria abolido. Melhor então não querer tornar-se um filósofo, já que a verdade que aspira a Filosofia, o mundo em que vivemos não quer saber dela, pois vai certamente aperrear a paz do “rebanho humano” e atrair o ódio dos seus “pastores”. Não é à toa que Heidegger (no texto "O que significa pensar?") foi enfático e, de certo modo, sarcástico ao responder à crítica de que o filósofo pensa demais e faz de menos. Diz ele que esse não seria exatamente o problema: faz-se demais, e pensa-se de menos? E, por isso, o homem já nem saberia para onde está indo e por que?
Assim, a Filosofia não se propõe ser um conjunto das crenças dos filósofos, mas um convite perene à autonomia advinda de uma visão de conjunto que vê, escuta e responde às questões do que é ser um ser humano como alguém que caminha sobre a terra, fala sobre a vida e nela age. E esta também não é uma resposta definitiva do que seja a Filosofia. Porém, é um princípio de caminho...
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